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9 de março de 2024

O latido de um cão sarnento.

É insuportável olhar à miséria que escorre pelos chãos d'alhures. Lá ficam; pouco sabem que estão. E a imobilidade humana pede aos porões sempre lustros aos azulejos de sua impermeabilidade inlúcida, venérea e vilipendiosa. 
As casas assépticas são as mesmas eugênicas. Aquela que limpa é resto e sujeira que inda não vale o descarte que lhe pagam. As sarnas dos cães ladroam a piedade de um cristo cravejado n'ouro. E assim, por isso, um cão guarda o maltrapilho: são franciscos da caridade; adotam o miserável faminto para sorvel dos miseráveis nutridos a carne de dividir no abrigo.
                                                Bruno Teodoro

14 de dezembro de 2023

Foi um breve vulto de felicidade.
Um vento sorrateiro que adentra a janela quando mal a fechamos.
Passou-se. 
Quase não mais me lembro, 
Neste deserto rarefeito de minha alma,
Do frescor de um vento que se dissipa
Após as tempestades que, assustadoramente abundantes, afogam; 
Mas que, com sorte, nutrem vida da decomposta que fica ao rastro de sua passagem.

São como ninhos de elefantes com marcas de marfim em dominó nas cascas ásperas das árvores, Primitivas comunicações em potências de antologias 
Que não poderão ser ouvidas pelas almas ainda selvagens.

Por isso o amor é gutural. 
Uma entranha fisiológica já esquecida pela plástica suavização 
Da elegância cínica de animais coreografados. 
Ela sempre foi a afonia da alma. 
Não há que ser dito, se dizer já é perder.

Então não é fogo, 
Porque esse queima com ardor de consumir pele, 
Alimento único do tempo, que não vemos.
E se ferir dor é o que se sente, 
Causa é a ausência descontente, 
O atino apenas à leal dor que se está presente
No cárcere servil do tempo vencedor.
E a favor do mísero homem, sim, resta-se verdadeiramente amigo das vontades,
Não vendo-se a si próprio
Contraditório ao amor.

Bruno Teodoro

14/12/2023 

 
 


31 de janeiro de 2019

E paria nos campos os estigmas do gineceu,
Brumoso e rubro néctar em quermes às pedras
De hinos sal ro... rogado a todas as
espécies que rastejam em seu próprio coito.

Em trombetas desvarios, ao céu, sem élitro despenca.
A vida em tanatose se esconde.
Disforme, um sanguíneo gânglio rebenta.




 

8 de janeiro de 2019

Tempesta Vida


E que tempesta a vida,
Lúgubre piscina, 
Qual égide um prédio frágil afoga,
E que no interior augura frágil luz,
De hétero falaz flama morna.

Baile das tormentas, o sino toca,
A reputação badala,
Sulfuroso furacão, corrói
A mecânica entranha de
Pretensão rítmica e oblíqua:
Cansaço, cansaço, cansç...
 

20 de maio de 2018

Para que eu nunca me perca



Sou como todo aquele que transita pelas vielas da vida.
Então que seja
sem a mesquinha sobriedade-austera dos pensadores ricos,
sem o falso orgulho de rotina dos artistas,
sem a pretensa sabedoria dos filósofos poetas,
sem o altímetro do ego,
sem arranhar o céu e nem flertá-lo.

minha constante hipocrisia é o casulo da minha metamorfose humana,
e que me transformarei


 a findar-me sem forma.

21 de junho de 2017


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Obnubila,
Opõem nébula, fere e vela.
Aboça,
Aqueda em míngua trégua.
Quieta,
Oculta bela, cumpre e cega.

3 de junho de 2017

A inquieta lente não se fuga
Destes sépios olhos de penumbra,
Qual mal da carne me só ruga                          
O tempo, a que melhor me adumbra.

E esse sem só jeito em clara uga,
Qual em todos ligeiro só alumbra                    
Sua alcova num instante - cousa nuga -,
E a vida obtura e a translumbra.

Porque passageiro aqui moldura
nestes tenros olhos de calúnia,
a captura, tal fleche, mal perdura.

Ah! Visto que tudo é pecúnia!
E qual vida dura e qual futura
é esta que não seja, nós, penúria?
Ah! que estão todos a mui servidos,
Desd’o teso tempo e em flagrado ardor,
De dores sem sonos adormidos,
Pelejando o afastar daquele amor.

Mas que o amor é este quedo aguinido,
Que de tantas fez em uma só cor,
A rubra sangria em rosa aluzido,
Meu olhar ao acaso, nascente alvor.

Olho-te ao sonoite em lânguido aflito,
Qual farol que assiste ao conflito
D’uma nau que ascende além dos idos.

Ah! que’ste meu olhar derriça afora,
Tal qual navio ao longe se arvora,
Ao que só penso no amor d'outrora.

                                                           Bruno Teodoro


Me decomponho.
Todos os dias sou menos de mim:
Uma casca rala esvoaçante, soprada pelas unhas,
É parte poeira do pó de minha casa.
As mobílias já possuem duas ou três peles,
Que me foram arrancadas ao saldar o tempo ferrugem.
Minha    velhice        é a           minha                         juventude
.        esparsa,
Nada                    sou eu.
Não          tenho                               a
.                p            e                        l
.                                          e
.                   qu                              e              o                                       f
.     u               t                                 u
.                                    r
       o                                                                                           afasta.
***


26 de dezembro

26 de Dezembro
À noite, caída do sossego na calma do descansar-se ao sono, dorme onde tudo se ajeita em quietude. O velho se levanta da notícia do assassinato do bebê de Nazaré e, também, em meio ao obituário, onde Francisco, 76 anos, marido de dona Carmem, pai de João Pedro e de Madalena, deixa amigos, parentes e saudades; e do classificado: “procura-se carpinteiro que saiba fazer uma cruz; paga-se com um beijo”. 

“Trovão!” Cambaleia e chama por Trovão. 

Nem um trago sobrou da noite fria que acompanhou a névoa de garoas cuspidas pela intragável noite que lhe deitara amortecido horas atrás. Noites dessas, nem o sol consegue acordar um homem; todo calor é fraco quando o limo verde sobe o concreto de uma ponte a favorecer baratas e outros duendes. 

A máquina de brinquedos está para partir. “Trovão!” Grita em tosse seca de cola madeira. De longe, uma corrente se abarulha no asfalto e no pedrisco. Dos três botões pretos, um não resistiu, e a fivela dourada se descascara no natal passado; a gola, branca, se azedara na sujeira e na carniça do sulco do pescoço. 

“Trovão!” Nove latidos são ouvidos por três vezes e nenhum galo cantou. A barba amarela sua água e sal, e a última ceia é o pão daquela noite.

Do farol, a mamãe não voltou daquela vez, deixou-o sentado na guia, na frente da ponte Sul, de São Nicolau, e partiu. “Seja um bom menino”, disse ela, enquanto a ponte brilhava luz vermelha de freio e luz amarela de passagem. O menino fez um trenó e ganhou barba.

“Trovão, Relâmpago, Dançarina, Raposa, Cupido, Empinadora, Cometa, Corredora e Rodolfo”, disse chicoteando, após tê-los presos no trenó. E os latidos se ergueram antes do sol. A rua jazia hepática e nenhuma criança curiosa ficou acordada para vê-lo chegar. Não houve leite nem biscoitos. Recolheu todas as vazias caixas de presentes bem rasgadas, que foram deixadas no pé da lixeira, e voltou embora.

***

2 de novembro de 2016

Que se lembre que as fissuras do chão são cobertas pelo lodo de nossos passos.