26 de Dezembro
À noite, caída do sossego na calma do
descansar-se ao sono, dorme onde tudo se ajeita em quietude. O velho se levanta
da notícia do assassinato do bebê de Nazaré e, também, em meio ao obituário,
onde Francisco, 76 anos, marido de dona Carmem, pai de João Pedro e de
Madalena, deixa amigos, parentes e saudades; e do classificado: “procura-se
carpinteiro que saiba fazer uma cruz; paga-se com um beijo”.
“Trovão!”
Cambaleia e chama por Trovão.
Nem um trago sobrou
da noite fria que acompanhou a névoa de garoas cuspidas pela intragável noite
que lhe deitara amortecido horas atrás. Noites dessas, nem o sol consegue
acordar um homem; todo calor é fraco quando o limo verde sobe o concreto de uma
ponte a favorecer baratas e outros duendes.
A máquina de brinquedos está para
partir. “Trovão!” Grita em tosse seca de cola madeira. De longe, uma corrente se
abarulha no asfalto e no pedrisco. Dos três botões pretos, um não resistiu, e a
fivela dourada se descascara no natal passado; a gola, branca, se azedara na
sujeira e na carniça do sulco do pescoço.
“Trovão!” Nove latidos são ouvidos
por três vezes e nenhum galo cantou. A barba amarela sua água e sal, e a
última ceia é o pão daquela noite.
Do farol, a
mamãe não voltou daquela vez, deixou-o sentado na guia, na frente da ponte Sul,
de São Nicolau, e partiu. “Seja um bom menino”, disse ela, enquanto a ponte
brilhava luz vermelha de freio e luz amarela de passagem. O menino fez um trenó
e ganhou barba.
“Trovão,
Relâmpago, Dançarina, Raposa, Cupido, Empinadora, Cometa, Corredora e Rodolfo”,
disse chicoteando, após tê-los presos no trenó. E os latidos se ergueram antes
do sol. A rua jazia hepática e nenhuma criança curiosa ficou acordada para
vê-lo chegar. Não houve leite nem biscoitos. Recolheu todas as vazias caixas
de presentes bem rasgadas, que foram deixadas no pé da lixeira, e voltou
embora.
***
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