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21 de junho de 2017
3 de junho de 2017
A inquieta lente não se fuga
Destes sépios olhos de penumbra,
Qual mal da carne me só ruga
O tempo, a que melhor me adumbra.
E esse sem só jeito em clara uga,
Qual em todos ligeiro só alumbra
Sua alcova num instante - cousa nuga -,
E a vida obtura e a translumbra.
Porque passageiro aqui moldura
nestes tenros olhos de calúnia,
a captura, tal fleche, mal perdura.
Ah! Visto que tudo é pecúnia!
E qual vida dura e qual futura
é esta que não seja, nós, penúria?
Ah! que estão todos a mui servidos,
Desd’o teso tempo e em flagrado ardor,
De dores sem sonos adormidos,
Pelejando o afastar daquele amor.
Mas que o amor é este quedo aguinido,
Que de tantas fez em uma só cor,
A rubra sangria em rosa aluzido,
Meu olhar ao acaso, nascente alvor.
Olho-te ao sonoite em lânguido aflito,
Qual farol que assiste ao conflito
D’uma nau que ascende além dos idos.
Ah! que’ste meu olhar derriça afora,
Tal qual navio ao longe se arvora,
Ao que só penso no amor d'outrora.
Bruno Teodoro
Me decomponho.
Todos os dias sou menos de mim:
Uma casca rala esvoaçante, soprada pelas unhas,
É parte poeira do pó de minha casa.
As mobílias já possuem duas ou três peles,
Que me foram arrancadas ao saldar o tempo ferrugem.
Todos os dias sou menos de mim:
Uma casca rala esvoaçante, soprada pelas unhas,
É parte poeira do pó de minha casa.
As mobílias já possuem duas ou três peles,
Que me foram arrancadas ao saldar o tempo ferrugem.
Minha velhice é a
minha
juventude
. esparsa,
Nada sou eu.
Nada sou eu.
Não tenho
a
. p
e
l
.
e
. qu
e o
f
. u t
u
.
r
o
afasta.
***
26 de dezembro
26 de Dezembro
À noite, caída do sossego na calma do
descansar-se ao sono, dorme onde tudo se ajeita em quietude. O velho se levanta
da notícia do assassinato do bebê de Nazaré e, também, em meio ao obituário,
onde Francisco, 76 anos, marido de dona Carmem, pai de João Pedro e de
Madalena, deixa amigos, parentes e saudades; e do classificado: “procura-se
carpinteiro que saiba fazer uma cruz; paga-se com um beijo”.
“Trovão!”
Cambaleia e chama por Trovão.
Nem um trago sobrou
da noite fria que acompanhou a névoa de garoas cuspidas pela intragável noite
que lhe deitara amortecido horas atrás. Noites dessas, nem o sol consegue
acordar um homem; todo calor é fraco quando o limo verde sobe o concreto de uma
ponte a favorecer baratas e outros duendes.
A máquina de brinquedos está para
partir. “Trovão!” Grita em tosse seca de cola madeira. De longe, uma corrente se
abarulha no asfalto e no pedrisco. Dos três botões pretos, um não resistiu, e a
fivela dourada se descascara no natal passado; a gola, branca, se azedara na
sujeira e na carniça do sulco do pescoço.
“Trovão!” Nove latidos são ouvidos
por três vezes e nenhum galo cantou. A barba amarela sua água e sal, e a
última ceia é o pão daquela noite.
Do farol, a
mamãe não voltou daquela vez, deixou-o sentado na guia, na frente da ponte Sul,
de São Nicolau, e partiu. “Seja um bom menino”, disse ela, enquanto a ponte
brilhava luz vermelha de freio e luz amarela de passagem. O menino fez um trenó
e ganhou barba.
“Trovão,
Relâmpago, Dançarina, Raposa, Cupido, Empinadora, Cometa, Corredora e Rodolfo”,
disse chicoteando, após tê-los presos no trenó. E os latidos se ergueram antes
do sol. A rua jazia hepática e nenhuma criança curiosa ficou acordada para
vê-lo chegar. Não houve leite nem biscoitos. Recolheu todas as vazias caixas
de presentes bem rasgadas, que foram deixadas no pé da lixeira, e voltou
embora.
***
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