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3 de junho de 2017


Me decomponho.
Todos os dias sou menos de mim:
Uma casca rala esvoaçante, soprada pelas unhas,
É parte poeira do pó de minha casa.
As mobílias já possuem duas ou três peles,
Que me foram arrancadas ao saldar o tempo ferrugem.
Minha    velhice        é a           minha                         juventude
.        esparsa,
Nada                    sou eu.
Não          tenho                               a
.                p            e                        l
.                                          e
.                   qu                              e              o                                       f
.     u               t                                 u
.                                    r
       o                                                                                           afasta.
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26 de dezembro

26 de Dezembro
À noite, caída do sossego na calma do descansar-se ao sono, dorme onde tudo se ajeita em quietude. O velho se levanta da notícia do assassinato do bebê de Nazaré e, também, em meio ao obituário, onde Francisco, 76 anos, marido de dona Carmem, pai de João Pedro e de Madalena, deixa amigos, parentes e saudades; e do classificado: “procura-se carpinteiro que saiba fazer uma cruz; paga-se com um beijo”. 

“Trovão!” Cambaleia e chama por Trovão. 

Nem um trago sobrou da noite fria que acompanhou a névoa de garoas cuspidas pela intragável noite que lhe deitara amortecido horas atrás. Noites dessas, nem o sol consegue acordar um homem; todo calor é fraco quando o limo verde sobe o concreto de uma ponte a favorecer baratas e outros duendes. 

A máquina de brinquedos está para partir. “Trovão!” Grita em tosse seca de cola madeira. De longe, uma corrente se abarulha no asfalto e no pedrisco. Dos três botões pretos, um não resistiu, e a fivela dourada se descascara no natal passado; a gola, branca, se azedara na sujeira e na carniça do sulco do pescoço. 

“Trovão!” Nove latidos são ouvidos por três vezes e nenhum galo cantou. A barba amarela sua água e sal, e a última ceia é o pão daquela noite.

Do farol, a mamãe não voltou daquela vez, deixou-o sentado na guia, na frente da ponte Sul, de São Nicolau, e partiu. “Seja um bom menino”, disse ela, enquanto a ponte brilhava luz vermelha de freio e luz amarela de passagem. O menino fez um trenó e ganhou barba.

“Trovão, Relâmpago, Dançarina, Raposa, Cupido, Empinadora, Cometa, Corredora e Rodolfo”, disse chicoteando, após tê-los presos no trenó. E os latidos se ergueram antes do sol. A rua jazia hepática e nenhuma criança curiosa ficou acordada para vê-lo chegar. Não houve leite nem biscoitos. Recolheu todas as vazias caixas de presentes bem rasgadas, que foram deixadas no pé da lixeira, e voltou embora.

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2 de novembro de 2016

Que se lembre que as fissuras do chão são cobertas pelo lodo de nossos passos.